quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PJ Harvey - White Chalk (2007)

O último álbum da cantora inglesa PJ Harvey, chamado “White chalk”, é simples, melancólico e assustador. 

É mais um que se junta à série “Música para cortar os pulsos” com “In rainbows”, do Radiohead, e “Third”, do Portishead. 

Praticamente todo em voz e piano, o álbum possui uma atmosfera gótica que, combinada com antigas lendas e folclore anglo-saxões, resultam em uma obra que derrama tristeza dos alto-falantes. 

“To talk to you”, em homenagem à avó da cantora, é de cortar o coração. “White chalk” tem 11 músicas com média de 3 minutos, e PJ deixa para o final de “The mountain”, a última do disco, o extravasar de sua catarse. 

Melhor escutar do que ler. Abaixo, todas as canções do álbum e alguns trechos das letras. Ouça com cuidado. E proteja os pulsos.


GROW GROW GROW
Teach me mummy
How to grow
How to catch someone's fancy
Underneath the twisted oak grove

WHEN UNDER EITHER
I lay on the bed
Waist down undressed
Look up at the ceiling
Feeling happiness
Human kindness

WHITE CHALK
And I know
These chalk hills will rot my bones

BROKEN HARP
Please don't reproach me
For how empty my life has become
I don't know what really happened
I watched your disappointment
At being misunderstood

SILENCE
And in my thinking
I'd steal you away
though you never wanted me anyway

TO TALK TO YOU
Oh grandmother
How I miss you
Under the earth
Wish I was with you

To talk to you

THE PIANO
Nobody's listening
Oh God I miss you

BEFORE DEPARTURE
Farewell my friends
Farewell my dear ones
If I was rude
Forgive my weakness

Goodbye my friends
Goodbye to evening parties
Remember me
In the spring

THE MOUNTAIN
By the mountain
I feel nothing
For in my own heart
Every tree is broken

The first tree will not blossom
The second will not grow
And the third is almost fallen
Since you betrayed me so

Since you

Zohan – O Agente Bom de Corte (You Don't Mess with the Zohan, 2008)

“Zohan – O agente bom de corte”, novo filme de Adam Sandler que estréia nesta sexta-feira, é daquelas obras que você ama ou odeia.

Bobo até dizer chega, a parceria no roteiro de Sandler com Judd Apatow resultou em uma comédia quase intermitente, já que é difícil permanecer mais do que 60 segundos sem rir durante a projeção do longa. Entretanto, o que pode ser hilário para alguns, pode ser estúpido para outros. Ou ofensivo.

Zohan Dvir (Adam Sandler) é um contra-terrorista israelense muito popular em seu país. Sua cabeleira encaracolada e barba espessa, aliada ao físico musculoso e bronzeado, seduzem as mulheres. O fato de ser um super agente, uma máquina de guerra, causa admiração nos homens. Mas Zohan – considerado o “Rembrandt das granadas” – não é feliz.

Com todo o poder que sua camisa de Mariah Carey lhe confere, Zohan decide confessar seu sonho a seus pais. Cansado de lutar e matar gente em uma guerra que já dura dois mil anos, Zohan sonha em viajar para os Estados Unidos e, como cabeleireiro, deixar o mundo mais “suavemente sedoso”.

Zohan tem a teoria de que não se pode ser exigente com as mulheres, já que “toda erva-daninha no deserto é uma flor”. Além disso, ele está convicto de que é o melhor e, por isso, tem o dever de oferecer o que ele tem de melhor. Ou seja, ele mesmo. Quando ele começa a fazer “barba, cabelo e bigode” com suas clientes idosas, a fila de velhinhas começa a dar voltas no quarteirão. Se sentindo o Hugh Heffner cercado de coelhinhas, Zohan enfrentará um problema com a dona do salão, a palestina Dália (a linda atriz canadense Emmanuelle Chriqui).

“You don’t mess with the Zohan” (no original) é uma das primeiras produções americanas influenciadas pelo sucesso de “Borat”, e segue a linha do besteirol total, com muitas das risadas provenientes das (ótimas) piadas do roteiro, dos sotaques de seus personagens e da (cuidadosa) legendagem, já que o roteiro utiliza diversas expressões judaicas. A trilha sonora – deliciosamente assustadora – tem muito electropop dos anos 80, como Ace of Base e Technotronic, e as seqüências de ação são dignas da trilogia Bourne.

Mas o melhor de tudo é, sem dúvida, a seleção de elenco do filme. Todos os personagens coadjuvantes estão muito bem, com maior destaque para John Turturro (no papel de Fantasma, arqui-inimigo palestino de Zohan), Nick Swardson (que acolhe o nosso herói em Nova York), Alec Mapa (como o assistente de cabeleireiro) e Ido Mosseri (como Oori). Além disso, todo o elenco da terceira idade está fantástico. As velhinhas – que só querem se divertir – dão um show à parte (algumas chegam até a se fantasiar de enfermeira e sado-masoquista), com um destaque maior aos pais de Zohan, personificados por Shelley Berman e Dina Doron.

Ainda há espaço para piadas envolvendo Chris Rock, o tenista aposentado John Mc Enroe, americanos, israelenses, palestinos, Mel Gibson, a série “Rocky”, Saddam Hussein, Gene Simmons (o linguarudo do Kiss, que é judeu) e Mariah Carey (que participa do filme como ela mesma). Seqüências hilárias como as que Zohan confessa seu sonho aos pais, “mata” “dreadlocks” em um salão afro e “apaga” um menino num salão infantil, já valem o filme.

O fato de criticar a posição dos Estados Unidos através de Walbridge, um empresário inescrupuloso que posa de bonzinho mas vive tentando colocar judeus contra palestinos para se beneficiar economicamente, em uma comédia que é um primor de incorreção política, apenas torna “Zohan – O agente bom de corte” mais atraente. Seria ótimo para quem gosta de comédia – e, talvez, para Adam Sandler – se a parceria com Apatow continuasse.


A Caçada (The Hunting Party, 2007)

“A caçada”, novo filme estrelado por Richard Gere (em uma das melhores performances de sua carreira), estréia nesta sexta-feira com quase um ano de atraso.

Durante praticamente todo este período, a fonte de inspiração da caçada do título seguiu foragida. Baseado em uma história real, o longa escrito e dirigido por Richard Shepard estréia no Brasil pouco depois da captura de um dos maiores criminosos de guerra do planeta.

Simon Hunt (Richard Gere) e Duck (Terrence Howard, de “Crash” e “Valente”) são jornalistas e parceiros. Hunt é o melhor correspondente de guerra do mercado, e sabe que seu título deve muito ao excelente – e destemido – trabalho de câmera realizado por Duck.

A adrenalina do exercício da profissão debaixo de rajadas de metralhadoras, bombas e explosões é tratada com humor. Hunt e Duck temem por suas vidas, mas conseguem rir depois.

No auge da carreira, tudo mudará durante uma reportagem numa pequena aldeia da Bósnia, já no fim da guerra. Sendo transmitido ao vivo, via satélite, para os Estados Unidos e o mundo, Hunt surta e joga a carreira no lixo. Duck, em contrapartida, é promovido, tornando-se o câmera exclusivo do âncora do mais importante telejornal dos EUA, Franklin Harris (James Brolin). Anos depois, Franklin e Duck aterrissam em Sarajevo para uma reportagem sobre as comemorações do fim da guerra.

Junto com eles, o jovem Benjamin (Jesse Eisenberg, do ótimo “A lula e a baleia”), filho do vice-presidente do canal de TV. Será pelos olhos “virgens” de Ben que o público tomará conhecimento de uma história que é uma desmoralização pública da ONU, OTAN, CIA e EUA, principalmente.

Hunt convence Duck que tem uma matéria quente nas mãos, que poderá significar sua saída do fundo do poço. Completamente endividado, Hunt garante ter uma fonte que conhece o paradeiro de um dos criminosos de guerra mais procurados do mundo. Os Estados Unidos oferecem uma recompensa de cinco milhões de dólares por sua captura. Logo, Hunt, Duck e Ben partem Bósnia adentro em busca do paradeiro do “Raposa” (Ljubomir Kerekes), um amálgama de Radovan Karadzic – o “Carniceiro”, recém-capturado em Belgrado – e Osama Bin Laden. Não tardará muito para que o trio seja confundido com uma equipe da CIA, com todas as conseqüências possíveis decorrentes deste bizarro engano.

Baseado no artigo “How I spent my summer vacation” (“Como passei minhas férias de verão”, em tradução literal) da revista “Esquire”, assinado por Scott Anderson, “The hunting party” (no original) adapta a história real de cinco jornalistas – três americanos, um belga e um holandês – que, passando férias na Bósnia e bêbados, conseguiram, em apenas 48 horas, chegar muito mais perto de um dos maiores e mais procurados criminosos de guerra do que a ONU, a OTAN, a CIA, os EUA, a Inglaterra e a França. Mesmo com 10 mil tropas na Bósnia e Croácia caçando o foragido. O preço do reconhecimento quase foi a cadeia, já que os verdadeiros agentes da CIA ficaram enciumados quando um espião bósnio os esnobou, pois já havia dito tudo o que havia a dizer para a equipe especial, os “agentes superiores”.

A história é ótima, mas a adaptação cinematográfica toma suas licenças poéticas, que nem sempre funcionam. O problema é que todas as vezes que o roteiro embarca na ficção, estreitando relações e revelando as biografias de seus personagens, acontece um estranhamento, há uma diferença no tom. Pode-se dizer que Shepard fez um filme de humor negro, e que seu olhar cínico evita que o humor e a tensão sejam substituídos pela pieguice e pelas lágrimas. Mas sua indefinição em fazer um filme ao estilo de “Três reis”, talvez tentando imprimir uma maior carga dramática a ele, acaba tornando algumas partes de um “thriller-de-ação-comédia-jornalística” em momentos dignos de um drama capenga.

A impressão que dá é que Shepard não tomou uma posição sobre que tipo de filme queria fazer. Agora, quase um ano depois, Radovan Karadzic foi preso e será julgado. O filme levanta uma questão sobre um possível acordo do criminoso com os EUA, já que seria de interesse dos Estados Unidos que ele não depusesse, além de colocar em dúvida o real interesse dos americanos na captura de Bin Laden. O fato é que a história é muito boa para a adaptação que foi feita, mesmo com as ótimas atuações do trio principal e a impactante filmagem em locações, mostrando uma Bósnia pós-guerra cujas construções, repletas de marcas de tiros nas paredes, confirmam que a ferida ainda está recente, e longe de cicatrizar. Uma pena.


domingo, 3 de agosto de 2008

A Múmia – Tumba do Imperador Dragão (2008)

“A Múmia – Tumba do Imperador Dragão” é o terceiro filme da franquia que ressuscitou o antigo monstro da Universal. Seus dois primeiros longas, de 1999 e 2001, foram taxados de sub-Indiana Jones por muitos. 

Após o decepcionante quarto episódio do arqueólogo interpretado por Harrison Ford, talvez “A Múmia 3” consiga o que, antes, era considerado impossível. Pois é bem provável que o novo filme de Brendan Fraser consiga superar “Indy 4” no gosto dos espectadores com menos de 10 anos.

Recentemente no México promovendo “The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor” (no original), Brendan Fraser declarou que Harrison Ford era seu herói, que considerava a franquia “Indiana Jones” insuperável no gênero e que, no fundo, queria ser Han Solo (personagem imortalizado por Ford na franquia “Star Wars”). 

Confetes à parte, e guardadas as devidas proporções, nos filmes de Steven Spielberg e na (por enquanto) trilogia da “Múmia” há muitos pontos em comum que irão agradar a criançada. Neste terceiro exemplar, há ainda algumas referências explícitas a então trilogia de Indy.

“A Múmia – Tumba do Imperador Dragão” começa, como os outros dois, com uma narração que explica o que aconteceu alguns séculos antes de Cristo. O Imperador Dragão da China (Jet Li), depois de haver conquistado todos os povos e regiões, elege como novo sonho de consumo, simplesmente, a vida eterna. Ao saber que a feiticeira Zi Yuan (Michelle Yeoh) pode levá-lo a conseguir o que quer, o Imperador rapidamente ordena que ela seja trazida ao seu Palácio. Entretanto, o Imperador passa a desejar, também, a feiticeira, até que ele é traído e sofre uma maldição, sendo transformados, ele e seu exército de 10 mil homens, em estátuas de terracota.

Corta para 1946. Rick O’Connel (Brendan Fraser) e Evy (Maria Bello) estão confortavelmente instalados em sua mansão. Ela é uma escritora de sucesso, com dois livros lançados sobre suas experiências com a múmia de Imhotep. Os livros têm os mesmos nomes dos filmes anteriores da série (“A Múmia” e “O retorno da Múmia”), e suas capas lembram aqueles cartazes das produções da Universal dos anos 30, quando seus filmes de monstros foram lançados. É uma boa sacada de metalinguagem, que aponta, com o “bloqueio de escritor” sofrido por Evy, para uma nova aventura.

Do outro lado, Rick tenta ter um hobby que não envolva armas, como pescar. O fato é que ambos estão entediados, sem perspectivas. Mas juraram um ao outro, depois do fim da Segunda Guerra, que não se envolveriam mais em aventuras e confusões. O filho do casal, Alex (Luke Ford), cresceu, e já é um homem. Enquanto seus pais pensam que ele está estudando na China, sob as guardas de seu tio Jonathan (John Hannah), Alex está numa escavação, descobrindo a tumba do Imperador a que o título se refere. Para todos se encontrarem e a diversão começar não falta nada.

Consciente disto, Rob Cohen fez um filme mais enxuto que os anteriores, mas sem o mesmo charme e acertos, principalmente, do primeiro. Ainda há aquela atmosfera divertidamente sombria-mas-nem-tanto, apenas o suficiente para não assustar as crianças, público-alvo do filme. Muitas pessoas morrem no decorrer da projeção, é bala para tudo que é lado e há, inclusive, uma morte por desmembramento.

Mas nada que assuste, pois a direção e a montagem são bastante eficientes em levar o espectador ao (urgente) evento seguinte. As cenas de ação empolgam, e os efeitos especiais são excelentes. Ao mesmo tempo, alguns diálogos ruins e cenas dispensáveis (Abomináveis Homens da Neve jogando futebol americano com soldados chineses, por exemplo) causam risos e bocejos.

As diferenças mais marcantes entre este e os dois longas anteriores da “Múmia” estão na ausência de Rachel Weisz (substituída com competência, mas não com o mesmo charme, por Maria Bello) e na transposição da trama do Egito para a China. Além, é claro, da nova múmia, personificada pelo mestre das artes marciais Jet Li, que ainda conta com Michelle Yeoh encabeçando o elenco oriental. Ambos credenciam mais ainda a mistura bem sucedida de Indiana Jones com o espetacular “Herói”, de Zhang Yimou, estrelado por Li.

O que importa é que o filme é uma milionária “Sessão da tarde”, e divertirá as crianças e aqueles que procurarem um passatempo semelhante.