Lua cheia. Praça da Apoteose. Camisas pretas para todos os lados. O Kiss está de volta ao Rio após 26 anos. O show atual é uma dupla celebração: dos (já) 36 anos de carreira da banda, e dos 35 anos do lançamento de “Alive!” (1975), disco que catapultou a banda ao estrelato.
Álbum duplo ao vivo mais vendido da história, ele é também considerado, por muitos, o melhor do gênero. Por isso, me espanta saber que alguns “fãs” reclamaram do set list do show, basicamente o “Alive!” na íntegra, com mais cinco canções no bis.
Para quem não sabe, o show inclui o melhor do repertório da banda, por mais que nenhuma música dos excelentes “Rock and roll over” (1976) e “Love gun” (1977) tenha sido tocada. Mas, aí, teria que ser um show de quatro horas, com a inclusão do “Alive II” (1977).
Mesmo representando a melhor fase da banda – 1974 a 1977 –, ainda assim, teve quem reclamasse, provavelmente, farofeiros apreciadores de material descartável e vergonhoso, como “Forever” e a grande maioria do que foi produzido pós-77, com exceção de “Creatures of the night” (1982), “Lick it up” (1983) e “Revenge” (1992).
Fato é que meu primeiro grande show internacional – e, talvez, do Rio, e do Brasil – foi a histórica "última" apresentação do Kiss com a famosa maquiagem, em junho de 1983. Aquele show mostrou que eram viáveis shows internacionais de rock por aqui, o que foi concretizado um ano e meio depois com a definitiva primeira edição do Rock In Rio, em janeiro de 1985.
Fiquei tão impactado com o show do Kiss que posso dizer, com tranqüilidade, que ele mudou minha vida (e, claro, estava nas duas noites de metal/hard rock do festival em Jacarepaguá). Meu primeiro disco (leia-se vinil), "Creatures of the night" – comprado na Mesbla da Tijuca –, foi o responsável pela vinda do grupo, com sua turnê em que a bateria era um tanque, que disparava seu canhão.
Por isso, estava mais do que ansioso para este show. E posso dizer, com um sorriso no rosto, que fui recompensado. Com um som alto e potente – justamente o contrário do (neste ponto, decepcionante) show do Iron Maiden –, o Kiss desfilou seus clássicos por duas horas.
Não teve voos, nem “Love gun”, o que só percebi no fim do show. E, sinceramente, não senti nenhuma falta, nem dos voos nem da música, que não agüento mais ouvir. O som tinha elementos de Beatles, Stones, Zeppelin em uma roupagem energética, extravagante e original, sem esquecer nunca a simplicidade e os ideais do bom e velho rock'n'roll - também compartilhados por AC/DC e Van Halen, bandas que foram muito ajudadas pelo Kiss no início de suas carreiras -, baseados, literalmente, em ficar doidão e trepar, e viceversa.
Aqueles riffs sem vergonha, no melhor dos sentidos, dos quais os irmãos Young são os mestres que reinam absolutos, aliados às letras safadas fazem uma combinação deliciosa. É uma pena que muitos enxerguem, apenas, as maquiagens, saltos plataforma, fogos e explosões. Azar o deles.
Além da performance fiel, das roupas da turnê do “Love gun” e dos fogos e explosões, na música mais pesada do show, “Parasite”, desabou um aguaceiro que só terminou em “100,000 years”. E que lavou a alma.
E de alma lavada saí, rouco e encharcado, mas tendo realizado um sonho de criança, de adolescente, de homem. E não é para isso que a gente vive?
Set list
Deuce
Strutter
Got To Choose
Hotter Than Hell
Nothin´ To Lose
C´mon and Love Me
Parasite
She
Watchin´ You
100,000 Years
Cold Gin
Let Me Go, Rock ´N´ Roll
Black Diamond
Rock And Roll All Nite
Shout It Out Loud
Lick It Up
I Love It Loud
I Was Made For Lovin´ You
Detroit Rock City

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