“Mr. Iommi: Thank you for creating and sustaining Heavy Metal”. Era essa a frase escrita em uma faixa que Dio catou da platéia. E é impressionante como ela se mantém atual.
O Heaven & Hell (ou melhor, o Black Sabbath) criou o Heavy Metal através, principalmente, das mãos e da mente do riff master Tony Iommi, autor dos riffs mais célebres, inspirados e influentes do rock mais pesado. Mesmo tocando menos do que Hendrix, Page, Beck, Clapton, Blackmore e Richards, seus riffs se proliferaram em várias vertentes do rock, dando origem a grupos – e estilos – musicalmente bastante distintos, de Soundgarden a Slayer.
Assim como os Beatles no pop e no rock – desde seu surgimento nos anos 60 até os dias de hoje –, a influência dos riffs de Iommi é claramente perceptível e evidente nas 300 milhões de bandas que existem por aí, do Metal ao Hard, do Thrash ao Death, do Grunge ao Doom, do nu metal ao emo.
Por isso, é claro que o público (leia-se eu) vibrou mesmo foi com os clássicos. Às 20h30m, com meia-hora de atraso, e já com gritos de “Sabbath!”, “Sabbath!”, “Sabbath!”, as luzes foram apagadas e “E5150” começou a sair dos PAs, para delírio de todos. A entrada do acorde de Iommi – ainda na intro – fez todos gritarem. A banda entrou no palco afiada, detonando “Mob Rules”, o primeiro petardo, mostrando que o Citibank ia passar no teste do som.
Podia-se ouvir todos os instrumentos com clareza e potência, assim como a voz de Dio. No fim da primeira música, a partida já estava ganha. Aí tem início “Children of the Sea”, uma de minhas preferidas, com o público (que cantou tudo, inclusive alguns riffs) berrando “Look out!” a plenos pulmões. “I”, de “Dehumanizer”, tem um ótimo riff, é muito boa, mas, devo dizer, iniciou a “pior” parte do show.
Não me entenda mal, o show foi histórico. Não houve momentos ruins, mas existe uma grande diferença entre uma música boa e uma música foda. Já que agora o Sabbath atendia por Heaven & Hell e, por isso, tivesse excluído do repertório qualquer canção da “Era Ozzy”, o mínimo que se poderia esperar era que eles tocassem mais clássicos da “Era Dio”. Mesmo com o lançamento do disco novo, “The Devil You Know”, primeiro do H&H e lançado 17 anos após “Dehumanizer” (1992), último álbum gravado pela formação Heaven & Hell, era perfeitamente possível tocar as três novas e la créme de la créme dos álbuns “Heaven and Hell” (1980) e “Mob Rules” (1981). Como eu já sabia o set list, acabei não me importando muito, pois já fui pro show conformado, ainda que com um pingo de esperança de que eles tocassem, pelo menos, “The Sign of the Southern Cross”, a minha preferida da “Era Dio”. Em vão.
A nova (e boa) “Bible Black” foi seguida por “Time Machine” (a pior da noite), iniciando a debandada para os bares e banheiros, corroborada pelo solo de bateria de Vinnie Appice. “Fear”, outra do disco novo, também tem seus bons momentos, mas nada que seja comparável aos clássicos de 80 e 81, como “Falling off the Edge of the World”, que certamente arrancou muitas lágrimas no Citibank. “Follow the Tears”, a melhor das músicas novas, precedeu a derradeira volta aos clássicos, em uma sequência matadora.
“Die Young” levou às lágrimas aqueles que ainda não haviam sucumbido, enquanto “Heaven and Hell”, com seus 20 minutos de duração, mostrou duas coisas: sendo o Sabbath uma banda originalmente de blues, vimos como pode ser tênue a linha que separa o jazz do metal (pessoalmente, devo dizer que Mike Stern já havia me mostrado isto). A outra comprovação foi, com a inserção de riffs de “Into the Void” no meio da canção, vimos que, assim como “Helter Skelter” (dos Beatles) pode ser considerada uma das primeiras canções de Heavy Metal, o mesmo vale para “Into the Void” em relação ao Thrash.
Houve, então, uma pequena introdução de “Country Girl”, que emendou com “Neon Knights”, que encerrou a noite de forma apoteótica. Dio, cada vez mais parecido com um gnomo do mal, segue cantando muito; Iommi presenteia a platéia com 40 anos de história do rock em forma de riffs, impávido e sinistro como Nosferatu; Geezer Butler, um animal no baixo, é responsável pela precisão e pulsação, com seu colega de cozinha, Vinnie Appice. A banda tem uma performance impecável no palco, uma execução perfeita, em todos os sentidos. E em todas as músicas.
Sem saudosimo, por mais que o show tenha sido histórico, preferi o de 92, simplesmente por uma questão de repertório. Mesmo retirando os clássicos do Ozzy, ainda assim ficou faltando muita coisa, como “The Sign of the Southern Cross”, “Voodoo”, “Lonely is the Word”, “Over and Over” etc. De qualquer forma, quem foi não se arrependeu. Mas o show, de 90 minutos, poderia ter sido mais longo. Mesmo com a velhice batendo na porta.
Matéria do Rio Show (GLOBO), de 14.05.09
Heaven & Hell apresenta clássicos da ‘Era Dio’ no Black Sabbath e lança primeiro álbum de estúdio
RIO - Muita gente nunca ouviu falar de Heaven & Hell. Quanto ao Black Sabbath, alguns poderão afirmar: são os "pais" do heavy metal. Ainda que um dos pais seja Ozzy Osbourne, vocalista original da fase (mais) clássica da banda, o Black Sabbath, com Ronnie James Dio nos vocais, continuou compondo clássicos, até hoje, fundamentais para se entender o metal. E, com Dio, o Sabbath (leia-se Tony Iommi e Geezer Butler) retorna ao Rio (onde estiveram em 1992) como Heaven & Hell, título do primeiro disco lançado com ele nos vocais e do clássico homônimo. Pelas mais variadas razões, artísticas e financeiras, ficou decidido que, com Ozzy, a banda se chamaria Black Sabbath; com Dio, Heaven & Hell. E é o Heaven & Hell, com canções somente da "Era Dio", que promete fazer um show inesquecível neste domingo (17.05), no Citibank Hall. Em primeira mão, o público poderá conferir três canções do recém lançado primeiro álbum de estúdio do Heaven & Hell, intitulado "The devil you know".
Dio teve uma rápida, porém marcante passagem pelo Black Sabbath. Juntos, lançaram inicialmente três clássicos: "Heaven and hell" (1980), "Mob rules" (1981) e o duplo ao vivo responsável por sua demissão, o histórico "Live evil". Dio teria sido flagrado alterando a mixagem a seu favor, sendo imediatamente expulso do grupo. Assim como Ozzy, Dio saiu em carreira solo de sucesso, que rendeu muito mais dinheiro e reconhecimento (a ambos) do que os tempos do Sabbath.
Dez anos depois, Dio retornaria para a gravação e o lançamento de seu quarto álbum com a banda (terceiro de estúdio), "Dehumanizer" (1992), cuja turnê trouxe o Sabbath ao Brasil pela primeira vez. Dio e Sabbath só voltariam a se reunir em 2006, para a gravação de três canções inéditas lançadas na compilação "Black Sabbath - The Dio Years", que chegou às lojas em abril de 2007. Iommi - detentor do nome Black Sabbath - anunciou uma nova turnê sob o nome de Heaven & Hell. O "novo" grupo lançou o CD/DVD ao vivo 'Live from Radio City Music Hall', também em 2007, registro da primeira turnê mundial. De volta ao estúdio, o Heaven & Hell gravou seu primeiro álbum, "The devil you know", que acaba de ser lançado.
De acordo com o set list da atual turnê, em relação ao DVD "Live from Radio City Music Hall", eles não tocarão "After all (The dead), "Lady evil", "The sign of the southern cross", "Voodoo", "The devil cried", "Computer god", "Shadow of the wind" e "Lonely is the word". Entram “Bible black”, “Fear” e “Follow the tears”, todas do disco novo. Abaixo, o set list que vem sendo tocado atualmente (o que não quer dizer que não possa haver mudanças). Tomara que ele seja modificado com a inclusão de algumas músicas. De qualquer forma, quem for ao Citibank verá um show histórico.
Set list
E5150
Mob Rules
Children of the Sea
I
Bible Black
Time Machine
Solo de bateria: Vinnie Appice
Fear
Falling off the Edge of the World
Follow the Tears
Die Young
Heaven and Hell
Country Girl / Neon Knights

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