
Kate Nash está no Brasil pela primeira vez. Multi-instrumentista, a britânica de 23 anos toca guitarra, baixo, bateria, piano, e ainda compõe e canta. Através do MySpace e, inicialmente, com apenas uma música, Kate despontou e assinou um contrato com uma gravadora, antecipando o lançamento de seu primeiro álbum, “Made of bricks” (2007), em alguns meses. Kate atingiu o topo das paradas de sucesso e ganhou prêmios. No Rio de Janeiro há três dias, agora ela traz para a lona do Circo Voador seu segundo disco, “My best friend is you” (2010). A cantora, inclusive, conferiu in loco – e aprovou – a casa da Lapa na noite de terça-feira – dia que, segundo ela, foi o melhor de toda sua vida. Por isso, foi uma menina de ressaca e de óculos escuros que, simpática, concedeu esta entrevista, enquanto esfriavam seus ovos mexidos com torradas. Encantada com a cidade e seus habitantes, a cantora já prometeu voltar. E se certificou de que seu tour manager atentasse para isso.
O GLOBO: Como foi lidar com o sucesso tão jovem?
KATE NASH: Acho que, na época, foi como um furacão. Foi realmente excitante, louco e assustador. Mas tenho grandes amigos, e uma família incrível que me ajudou a manter os pés no chão.
O GLOBO: Como está a repercussão de “My best friend is you”? Você espera repetir o sucesso de “Made of bricks”?
KATE NASH: Não, não espero. Estou em turnê há praticamente um ano e estou muito feliz, tenho muito orgulho do álbum. É tudo o que queria para mim. Fazer um segundo disco é muito difícil, especialmente quando se tem um sucesso estrondoso como eu tive com meu primeiro trabalho. Eu não esperava que isso acontecesse. Artisticamente, fiquei muito feliz com o disco. E excursionar tem sido ótimo, os shows têm sido muito bons. É quando você vê as coisas como elas realmente são.
O GLOBO: Muitos poderiam descrever sua música como “ensolarada”. Entretanto, há uma certa “escuridão”, não apenas em algumas letras mas, também, em alguns arranjos e melodias vocais. Esse equilíbrio agridoce é o que melhor definiria seu trabalho?
KATE NASH: Sim, eu diria que é isso. Acho que, definitivamente, tenho estes dois lados, assim como penso que ocorre com a maioria das pessoas. Muitas vezes, esperam que você seja um personagem de apenas uma dimensão, e se chocam quando percebem que você tem uma personalidade, que tem opiniões sobre as coisas. Algumas vezes, me sinto feliz, engraçada e boba, e escrevo uma canção pop. Outras vezes, fico irritada com tudo o que há de errado no mundo e que eu gostaria de consertar. É como uma terapia, a música pode ser terapêutica. Meu modo de lidar com meu lado mais escuro, com as questões mais sombrias, é através de uma canção, o que considero positivo.
O GLOBO: Quais são suas maiores influências?
KATE NASH: Eu diria que o punk é uma enorme influência para mim. Sempre amei punk rock. Quando tinha 16 anos, descobri The Buzzcocks, Sex Pistols e todas as bandas punk britânicas, como The Adverts, The Slits, Bored Teenagers. E depois disso descobri a cena Riot Grrrls, com Bikini Kill, Sleater-Kinney, Bratmobile e Heavens to Betsy. E isso se tornou imensamente vital e importante na minha vida. Eu estava buscando me identificar com mulheres que respeitava e que fizessem parte de algo revolucionário. E sempre amei música pop, cresci ouvindo Beatles e os discos da Motown dos anos 60, pois meus pais adoravam.
O GLOBO: O que você ouve no seu iPod?
KATE NASH: Ouço muito Giant Drag, Dum Dum Girls - gosto muito de seus discos -, escuto The Cribs (banda do namorado de Kate) o tempo todo. E Sleater-Kinney.
O GLOBO: A internet fez de você um sucesso. Na semana passada, o Radiohead lançou seu novo álbum e PJ Harvey transmitiu uma apresentação do novo disco. Como você vê o futuro da música e sua relação com a indústria fonográfica?
KATE NASH: Não faço ideia. Acho que estamos numa época muito confusa, as pessoas da indústria estão muito confusas. A internet tem sido incrivelmente útil, mas também tem destruído a indústria. Não sei qual é o futuro da música, mas não acho que o modo de se compor uma canção irá mudar. Só gostaria que houvesse mais respeito por aqueles que compram música, e cópias físicas dos álbuns também, pois fico triste quando as pessoas não querem ter algo nas mãos que você trabalhou tanto para criar. Sempre gostei de olhar as artes das capas, segurar o disco, poder passá-lo adiante para alguém, algum dia.
O GLOBO: Você já tem ideias para um próximo álbum?
KATE NASH: Ainda não tive ideias, mas já estou querendo voltar para o estúdio e ensaiar. Estive tão ocupada no último ano que não tive tempo para escrever. Então, quando voltar (para Londres), irei direto para o estúdio, pois preciso escrever. Mas não tenho ideia de como será, não tenho sequer um plano. No último disco, eu tinha algo mais parecido com um plano, meio que já sabia como ele seria, pois já havia feito o primeiro. Assim que o terminei, pensei em como seria o seguinte. Mas agora tenho mais liberdade criativa, o que é excitante. Não sei por qual caminho vou seguir.
O GLOBO: Alguma mensagem para seus fãs no Rio?
KATE NASH: Na verdade, tenho estado em contato com muitas garotas do Brasil há alguns anos, elas me enviam muitos emails. Acho que elas são encantadoras, e estou feliz em poder finalmente encontrá-las e iniciar essa conexão. Quero dizer, ainda nem fiz meu show e já estou querendo voltar pra cá (risos).
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